sábado, 1 de fevereiro de 2020

"Você costumava escrever", me dizem.
Não escrevo mais. Não é possível escrever sendo pela metade, tendo meia vontade.
Se eu não puder escrever com liberdade e sem medo de que as palavras sejam navalha na carne de quem as lê, mesmo que o que eu escreva seja sobre mim e não sobre elas, não posso fazê-lo.
Passei muitos anos da minha vida escrevendo sobre todas as coisas que me moviam. Meus amores, minhas saudades, revoltas, ideias, esperanças, decepções. Me despi completamente em palavras. Me derramei escorregadia pelas figuras de linguagem. Escrevi com endereço certo e pra acertar todos os alvos.
Um dia alguém disse que as minhas palavras feriam. Aceitei. Sumi com cada linha escrita, com cada conto e crônica da minha vida, com toda a expressão da minha criatividade. Passei à uma escrita contida,tímida e vaga. Voltei minha preocupação para evitar toda sorte de mágoa e humilhação que os outros pudessem sentir.
Então outro dia alguém me disse que as coisas que eu escrevia publicamente deviam ser ditas pessoalmente. Ditas, não escritas. E foi assim que calei os dedos novamente. Depois, substituí as minhas palavras pelas palavras de escritores de verdade, que escreviam textos e poemas que eu nunca vou escreveria.
Por fim, eu me tornei uma mulher cujas convicções não podiam mais ser expressas em palavras para não correr o risco de que elas fossem enviadas ao endereço incorreto. Os temas mais caros pra mim, como o feminismo e todas as questões que envolvem as relações entre homens e mulheres passaram a não ser mais temas sobre os quais eu podia falar. Achi que foi assim que eu morri um pouco. Quando o medo de não agradar me paralisou.
É a primeira vez que escrevo sobre isso. Com medo de escrever. E escrever com medo é ser pela metade, tendo meia vontade. 

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