quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Tempestade

Quando dorme de dia, fica confusa e com dificuldades de se localizar no tempo. Foi assim que cochilou naquela tarde de dezembro. O corpo queria despertar, mas os olhos se forçavam voltar a dormir. Teve vários sonhos ao longo das horas de sono perturbado. Num deles começava em um novo emprego. O lugar era uma escola de inglês que ficava numa ilha onde só se chegava em botes pequenos que levavam e traziam crianças de galochas coloridas. Ela própria calçava uma. No sonho também uma amiga que não vê há um tempo lhe conseguia a vaga. Trabalharia três vezes por semana e folgaria aos sábados e domingos. Vibrou com isso.
O telefone fez algum ruído e ela abriu os olhos assustada. Esticou os braços pela cama, olhou no rumo da porta do banheiro pra ouvir alguma coisa. Demorou um tempo pra entender que estava sozinha. Fechou os olhos apertando-os e tentou mais uma vez voltar a dormir. Mas o corpo já pedia movimento. Não adiantou pedir. Passou o resto do dia na cama enrolada em lençóis e agarrada aos travesseiros.
Foi assim que passou pelo frio do inverno amazônida. A chuva precipitava de nuvens escuras e pesadas que passeavam em cima da Baía do Guajará. De onde vê o céu da Cidade Velha vê aviões chegando. Nos dedos das mãos contou mais uma vez quantos dias faltavam pra que ela, por fim, pudesse voar até ele.
São dias de ansiedade, mas dias de espera apaixonada também. Lembrou de um poema que escrevera pra ele.

Onze arcanos
Ela é Beatles. Ele é Stones.
Ela é ar. Ele é fogo.
Ela é flor. Ele é árvore.
Ela é lunar. Ele é solar.
Ela é Buarque. Ele é Sampaio.
Ela é chuva. Ele é calor. 
Ela é feminista.
Ele um Marxista tropical. 
Ela escreve cartas. Ele canções.
Ela dança. Ele se movimenta.
Ela é um solfejo. Ele um solo de guitarra.
Ela é passarinho. Ele é ninho.



Pensou:

-Posso acrescentar 

Ela é espera. Ele é chegada.

Ela é brisa. Ele, revoada.

Eles são chuva.

Tempestade.