E mais uma vez se fez um abismo entre nós.
Eu fico revisitando cada hora dos últimos dias em que estivemos juntos, cada conversa, cada resposta atravessada, cada cobrança. Assim como cada carinho, cada gentileza e expressão de amor.
Não consigo me conformar que saímos de ter construído um lar com todas as dificuldades que enfrentamos, para sermos dois estranhos que em breve mal terão assuntos pra tratar.
Fico lembrando de todo o esforço que empregamos em tentar recomeçar, mas também em tão pouca disposição pra superar as mágoas que a gente carrega.
Já não faz mais sentido me perguntar onde a gente errou, o que poderíamos ter feito diferente ou por que não procuramos ajuda. Sim, acho que podíamos ter procurado amigos ajuda para lidar com tanta mágoa, com tanto trauma, com tanto rancor.
Uma vez você me disse que não me odiava, mas nutria por mim o maior amor que já sentiu. O mesmo amor que eu sentia por você. Mas onde é que ele estava em cada briga, em cada grito, em cada agressão? Onde a gente guardou o amor que sentíamos um pelo outro quando mais precisamos dele?
Hoje enquanto eu dava aula e tentava segurar o choro, eu me dei conta de que acabou. De que esse abismo é intransponível. Que nada vai reparar o que devia ter sido cuidado lá atrás, a plantinha que devia ter sido regada.
E agora eu só sinto medo. Medo de nunca mais ser amada, de nunca mais sentir meu corpo tremer, de nunca mais sentir os braços formigarem de ansiedade que eu sentia quando ia te ver. Medo de nunca mais amar. De viver sozinha, amargurada, deprimida.
Não tivemos filhos. Não casamos. Não tivemos uma cerimônia pra sacramentar o nosso amor. Não compramos uma casa. Não fizemos caminhadas. Não andamos de bicicleta. Não viajamos pra Itália.
Em breve ninguém vai lembrar que eu passei na sua vida. E eu não vou ser mais do que uma lembrança ruim.